Contas-poupança isentas de impostos: Portugal e Europa 2026
Contas-poupança isentas de impostos: o projeto CIPI da CMVM, o PPR, a conta espanhola que durou dois dias e porque é que a DEGIRO não oferece nenhuma.

Em Portugal ainda não existem contas-poupança isentas de impostos onde possa comprar ações e ETF sem pagar imposto sobre os ganhos. Existe o PPR, com uma dedução no IRS de até 400 €. E existe, desde 30 de setembro de 2026, um projeto da CMVM para uma Conta Individual de Poupança e Investimento (CIPI), que está nas mãos do Governo mas ainda tem de passar pela Assembleia da República.
Lá fora, a Suécia, a França e a Itália já têm contas destas. A Alemanha abre a sua a 1 de janeiro de 2027. A Espanha criou uma a 30 de setembro e perdeu-a dois dias depois.
E quem investe através da DEGIRO não tem acesso a nenhuma delas.
Uma conta de poupança e investimento é uma conta com um regime fiscal especial: os ganhos e os dividendos lá dentro ficam isentos, são tributados mais tarde ou pagam uma taxa fixa anual em vez de imposto a cada venda. Bruxelas chama-lhe SIA, de savings and investment account.
Contas-poupança isentas de impostos em Portugal: onde estamos
A resposta curta: ainda não há. Há um produto antigo, uma promessa, uma proposta chumbada e um projeto à espera. Por esta ordem.
O que existe hoje: o PPR
O plano poupança-reforma é o mais perto que Portugal tem de uma conta com vantagens fiscais. Segundo números citados pelo ECO em 2025, os PPR somavam quase 19 mil milhões de euros sob gestão e tinham mais de 2 milhões de subscritores.
A primeira vantagem está à entrada. Pode deduzir à coleta do IRS 20 % do que entregar no ano, até 400 € com menos de 35 anos, 350 € entre os 35 e os 50 e 300 € acima dos 50. Para chegar ao teto aos 30 anos, tem de entregar 2.000 €.
A segunda está à saída. Se resgatar nas condições previstas na lei, como a reforma por velhice, os ganhos pagam 8 % de imposto. A maioria das outras aplicações financeiras paga 28 %.
O problema é o que fica lá dentro. Um PPR é um fundo ou um seguro gerido por outra entidade, com as suas comissões. Não escolhe as ações nem o ETF. Para quem já gere a carteira na DEGIRO, é uma segunda carteira com as regras de outra pessoa.
2025: a promessa no programa do Governo
O programa do Governo de 2025 inclui a criação de contas-poupança isentas de impostos. O modelo descrito no programa eleitoral da AD é de diferimento: uma parte das contribuições de trabalhadores e empregadores ficaria livre de IRS até o dinheiro ser levantado.
Em julho de 2026, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, disse que o Governo está a trabalhar num "plano de poupança abrangente" que vai considerar a medida. Não deu datas nem números.
Junho de 2026: a proposta da IL, chumbada
No fim de junho, a Iniciativa Liberal levou ao Parlamento a proposta mais detalhada até agora, noticiada pelo Observador. Contas de poupança e investimento com os ganhos isentos de impostos, até 20.000 € de entregas por ano. Lá dentro cabiam ações, obrigações, unidades de participação em fundos, seguros financeiros e até PPR. O modelo assumido eram as ISA britânicas.
A proposta foi chumbada, com os votos contra do PSD e do PS, entre outros partidos. O PSD tinha a ideia no programa, mas votou contra a versão dos liberais. A leitura mais simples é que o Governo quer a medida, mas desenhada por si.
Setembro de 2026: o projeto da CMVM para a CIPI
A novidade mais concreta chegou a 30 de setembro. Numa audição no Parlamento, o presidente da CMVM, Luís Laginha de Sousa, revelou que o regulador já entregou ao Governo uma proposta de diploma para a CIPI, contou o ECO. A CMVM apresenta-a como alternativa aos depósitos a prazo, onde as famílias portuguesas guardam uma grande parte da poupança.
O próprio Laginha de Sousa deixou um aviso. A "concretização deste regime exigirá intervenção legislativa da Assembleia da República", porque mexe em matéria fiscal e contraordenacional. Não foram publicados limites, taxas nem datas.
Quem lhe disser hoje quanto vai poder pôr numa CIPI, ou quando abre, está a adivinhar.
Três desenhos em cima da mesa
| Proposta | De quem | Modelo fiscal | Limite | Estado |
|---|---|---|---|---|
| Contas-poupança do programa | Governo (AD) | Contribuições livres de IRS até ao levantamento | Não definido | Promessa, plano em preparação |
| Contas de poupança e investimento | IL | Ganhos isentos de impostos | 20.000 € por ano | Chumbada no Parlamento |
| CIPI | CMVM | Incentivos fiscais por publicar | Não publicado | Projeto entregue ao Governo |
São modelos diferentes: um adia o IRS sobre o que entra até ao levantamento, outro isenta os ganhos. A recomendação europeia aceita os dois, por isso a escolha final é política.
PPR vs conta de investimento: o que muda para quem investe
Hoje, a escolha é entre um PPR e uma conta normal. Uma conta de poupança e investimento seria a terceira via.
| PPR | Conta normal na DEGIRO | Futura conta de poupança e investimento | |
|---|---|---|---|
| Vantagem fiscal | Dedução de 20 % até 400 €, ganhos a 8 % nas condições legais | Nenhuma, regra geral 28 % | Por definir |
| Quem escolhe os investimentos | A gestora ou a seguradora | Você | Por definir (na proposta da IL, você) |
| Levantamento com vantagem | Nas condições legais, como a reforma | Sempre, sem vantagem | Por definir |
| Existe hoje | Sim | Sim | Não |
O PPR premeia quem deixa o dinheiro quieto até à reforma e aceita que outra pessoa escolha os investimentos. Uma conta com o desenho da IL premiaria quem escolhe as próprias ações e ETF. São produtos para pessoas diferentes, e não se excluem: a proposta liberal até previa PPR dentro de uma das contas.
Para medir o peso dos impostos, corra a nossa calculadora de dividendos com o rendimento bruto e depois com o líquido, e compare ao fim de 20 anos.
Contas de poupança e investimento na Europa em outubro de 2026
A 30 de setembro de 2025, a Comissão Europeia recomendou que cada Estado-membro ofereça uma conta destas, com acesso pelo menos a ações, obrigações e fundos UCITS (o que inclui ETF). Sugere quatro modelos fiscais: contribuições dedutíveis, rendimentos isentos, imposto diferido ou uma taxa fixa. É uma recomendação, não uma lei, por isso cada governo decide.
Em junho de 2025, sete países lançaram ainda o selo Finance Europe: França, Espanha, Alemanha, Países Baixos, Portugal, Luxemburgo e Estónia. É voluntário e exige pelo menos 70 % em ativos do EEE e um horizonte de cinco anos ou mais. Guarde esse número dos 70 %.
| País | Conta | Estado | Vantagem fiscal | Limite | Na DEGIRO? |
|---|---|---|---|---|---|
| Portugal | PPR | Em vigor | Dedução de 20 % no IRS, ganhos a 8 % | Dedução até 400 € | Vendido por bancos, seguradoras e gestoras |
| Portugal | CIPI | Projeto no Governo | Por definir | Por definir | Não se aplica |
| Espanha | Cuenta Financia Europa | Revogada a 2 out. 2026 | Era: 10.000 € de ganhos isentos | Era: 150.000 € | Não se aplica |
| Alemanha | Altersvorsorgedepot | Arranca a 1 jan. 2027 | Subsídio até 540 € por ano | 6.840 € por ano | Não (só na flatex) |
| França | PEA | Desde 1992 | 18,6 % em vez de 31,4 %, após 5 anos | 150.000 € | Não |
| Itália | PIR | Desde 2017 | Sem os 26 % após 5 anos | 40.000 € por ano | Sobretudo bancos italianos |
| Suécia | ISK | Desde 2012 | Taxa anual sobre o valor | Sem limite | Não |
| Países Baixos | Nenhuma | À espera da Box 3 (2028) | Não se aplica | Não se aplica | Não se aplica |
Espanha: a conta que durou dois dias
A 30 de setembro de 2026, Espanha publicou o Real Decreto-ley 26/2026, um decreto sobre habitação. Lá dentro estava a Cuenta Financia Europa: até 150.000 € de entregas, em ações cotadas de empresas da UE e do EEE ou em fundos e ETF com pelo menos 70 % em ativos europeus e 50 % em ações. Após cinco anos, os primeiros 10.000 € de ganhos ficavam isentos. Em Espanha, esses 10.000 € pagariam 1.980 € de imposto.
A 2 de outubro, o Congresso recusou convalidar o decreto, por 178 votos contra 172, e a conta caiu com as medidas de habitação. Nenhuma chegou a ser vendida.
A lição para Portugal: uma conta destas pode morrer no Parlamento por razões alheias. E a CIPI também vai precisar de uma lei.
Alemanha: o subsídio maior, a partir de janeiro
A 1 de janeiro de 2027 arranca o Altersvorsorgedepot. O Estado acrescenta até 540 € por ano, mais 300 € por filho. Quem entrega 1.800 € recebe 540 €: 30 % antes de o mercado fazer o que quer que seja. Os ganhos só pagam imposto na reforma.
A flatexDEGIRO anunciou a 24 de setembro três modelos desta conta, mas com a marca flatex. A DEGIRO, do mesmo grupo, não a oferece.
França, Itália e Suécia: as que já funcionam
Em França, o PEA aceita até 150.000 € de entregas. Após cinco anos, os ganhos pagam só as contribuições sociais de 18,6 %, contra 31,4 % numa conta normal. O senão: só admite ações de empresas da UE e do EEE.
Em Itália, o PIR elimina os 26 % sobre ganhos após cinco anos, mas exige pelo menos 70 % em empresas italianas.
Na Suécia, o ISK é o modelo que Bruxelas cita. Não há imposto a cada venda ou dividendo, só uma pequena taxa anual sobre o valor, com as primeiras 300.000 coroas isentas em 2026.
Porque é que a DEGIRO não oferece nenhuma
A DEGIRO vende o mesmo produto em quase toda a Europa a partir de uma única licença bancária alemã. Uma conta fiscal nacional exige tratar da informação fiscal de cada país e, por vezes, uma autorização local. Na Suécia, a própria ajuda da DEGIRO diz que não é possível abrir um ISK. Em França não há PEA.
É a troca de uma corretora transfronteiriça: comissões baixas e a mesma conta em todo o lado, sem invólucro fiscal local. O nosso guia de comissões da DEGIRO (em inglês) mostra o lado dos custos.
Para um residente em Portugal, mesmo que a CIPI avance, nada garante que a DEGIRO a ofereça. O cenário realista são duas contas: uma conta local com vantagem fiscal para a parte da carteira que cabe nas regras, e a DEGIRO para o resto. Para escolher a segunda corretora, veja a nossa comparação Trade Republic vs DEGIRO (em inglês).
O problema de que ninguém fala: a carteira partida em dois
Olhe outra vez para as regras. PEA: só UE e EEE. PIR: 70 % em Itália. Conta espanhola: ações europeias, ou fundos com pelo menos 70 % europeus. Selo Finance Europe, de que Portugal é fundador: 70 % europeus. Só o ISK sueco e a nova conta alemã se aproximam de regras neutras.
Ainda não se sabe que regras terá a CIPI. Mas se seguir os vizinhos, a conta isenta enche-se de ativos europeus e a parte global, as tecnológicas americanas e os ETF mundiais, fica na DEGIRO. Cada aplicação mostra-lhe uma metade torta.
Um exemplo. Tem 40.000 € numa conta isenta, tudo em ações europeias, e 60.000 € na DEGIRO, 80 % em ações dos EUA.
| Vista | Europa | EUA |
|---|---|---|
| Aplicação da conta isenta | 100 % | 0 % |
| Aplicação da DEGIRO | 20 % | 80 % |
| A sua carteira real | 52 % | 48 % |
Nenhuma das aplicações está errada, e nenhuma mostra a carteira que tem de facto. Os ganhos de uma conta pagam imposto, os da outra não. Os dividendos chegam em dois sítios, com retenções na fonte diferentes, como explica o nosso guia de retenção na fonte sobre dividendos (em inglês). Se reequilibrar pelos números de uma só aplicação, reequilibra a carteira errada.
Foi para isto que se criou o acompanhamento de carteiras DEGIRO do Zune.Money: importa o CSV da DEGIRO, regista as operações da outra conta como transações manuais e vê uma só alocação e um só retorno para as duas.
Como decidir em cinco passos
- Veja o que existe mesmo. Hoje, em Portugal, é o PPR. A CIPI ainda não é lei.
- Confirme se a sua estratégia cabe nas regras. Um investidor em ETF globais ganha mais com regras neutras do que com uma exigência de 70 % na Europa.
- Conte o tempo em que o dinheiro fica preso. O PPR só dá os 8 % nas condições legais, e a maioria das contas europeias pede cinco anos. Dinheiro de que pode precisar antes fica melhor noutro lado.
- Compare o custo extra. Uma segunda conta traz outras comissões, e um PPR tem comissões de gestão. Numa carteira pequena, a poupança fiscal pode ficar abaixo dos custos.
- Planeie como vai acompanhar as duas. Decida antes onde vai ver o total. Uma folha de cálculo aguenta uns meses, mas raramente sobrevive à primeira época de dividendos.
Para este último passo, veja como acompanhar uma carteira DEGIRO em 2026 (em inglês).
O que acompanhar a seguir
Em Portugal, o projeto da CMVM ainda tem de passar pelo Governo e pela Assembleia da República. A proposta de Orçamento do Estado para 2027 é o primeiro documento a ler para ver se o plano de poupança anunciado em julho ganhou números.
Lá fora, siga a Alemanha em janeiro e Madrid, que pode recuperar a Financia Europa.
Se já tem duas contas, ou está prestes a tê-las, importe o seu CSV da DEGIRO no Zune.Money, junte à mão as operações da outra conta e veja a carteira toda junta. Pode começar no plano gratuito.
Este artigo explica as regras em termos gerais, com informação de 3 de outubro de 2026. Não é aconselhamento fiscal: para o seu caso, fale com um contabilista certificado ou um consultor fiscal.
Perguntas frequentes
O que é a Conta Individual de Poupança e Investimento (CIPI)?
A CIPI é a conta de poupança e investimento com incentivos fiscais que a CMVM propôs ao Governo em setembro de 2026, pensada como alternativa aos depósitos a prazo. Para já é apenas um projeto de diploma. Não tem limites, taxas nem data, e precisa de uma lei da Assembleia da República por envolver matéria fiscal.
Quando vai haver contas-poupança isentas de impostos em Portugal?
Não há data. O Governo inscreveu a medida no seu programa de 2025 e diz estar a preparar um plano de poupança abrangente. A CMVM já entregou o projeto da CIPI, mas a proposta da IL, com 20.000 € por ano, foi chumbada no Parlamento em 2026. Qualquer versão terá de ser votada na Assembleia da República.
Quanto posso deduzir no IRS com um PPR?
Pode deduzir à coleta 20 % do que entregar no ano, até 400 € com menos de 35 anos, 350 € entre os 35 e os 50 e 300 € acima dos 50. Para chegar ao máximo, entrega 2.000 €, 1.750 € ou 1.500 €. No resgate, os ganhos pagam 8 % se cumprir as condições legais.
Posso abrir uma conta isenta de impostos na DEGIRO?
Não. A DEGIRO não oferece nenhuma conta com vantagens fiscais em nenhum país: nem ISK na Suécia, nem PEA em França, nem Altersvorsorgedepot na Alemanha, onde quem o vai vender é a flatex, marca do mesmo grupo. Na DEGIRO, todos os ganhos e dividendos seguem as regras normais de tributação do seu país de residência.
Posso abrir um PEA francês ou um ISK sueco a viver em Portugal?
Em regra, não. Estas contas estão ligadas à residência fiscal: o PEA é para residentes fiscais em França, o PIR para residentes em Itália e o ISK para quem paga impostos na Suécia. Se mudar de país, confirme antes o que acontece à conta, porque a vantagem fiscal costuma acabar ou mudar com a residência.