Temporada de resultados: o 3.º trimestre e a sua carteira
A temporada de resultados começou. Porque é que os 21 % de lucros a mais na Europa são quase só energia, porque caiu a ASML e o que mexe na sua carteira.

A temporada de resultados começou esta semana, e os dois primeiros grandes comunicados europeus já mostram a sua principal lição. Na segunda-feira, 12 de outubro, a LVMH apresentou vendas do terceiro trimestre em linha com as previsões, mas a divisão de moda e marroquinaria encolheu 5 %, quando os analistas esperavam cerca de 2 %. Na quarta-feira, 14 de outubro, a ASML registou uma margem bruta recorde de 57,5 % e bateu as previsões de lucro. As ações caíram na mesma.
A temporada de resultados não mede se uma empresa ganhou dinheiro. Mede se ganhou mais do que o mercado já dava por certo. Para a sua carteira, os resultados que mais contam vêm muitas vezes de empresas que nunca escolheu, porque é o seu ETF que as tem por si.
Abaixo estão o que esconde o crescimento de 21 % anunciado para a Europa, o que a ASML e a LVMH ensinam sobre como ler um resultado e um exemplo em euros que mostra que comunicados mexem de facto numa carteira típica.
O que é a temporada de resultados?
A temporada de resultados é o período de cerca de seis semanas, depois do fim de cada trimestre, em que a maioria das empresas cotadas publica as contas desse trimestre. Para o terceiro trimestre (julho a setembro), vai de meados de outubro a meados de novembro.
Um dia de resultados típico tem três partes:
- O comunicado. Receitas, lucro, margens e os um ou dois números que mais pesam naquele negócio, como as encomendas ou o crescimento orgânico.
- As previsões (guidance). A estimativa da própria empresa para o trimestre seguinte ou para o ano.
- A conferência com analistas. A administração responde às perguntas dos analistas, normalmente poucas horas depois do comunicado.
Cada número é comparado com o consenso, a média das previsões dos analistas que acompanham a ação. A cotação reage à diferença entre os dois, não ao número em si.
Resultados do 3.º trimestre na Europa: 21 % de crescimento, quase todo da energia
O número de capa parece forte. Segundo dados da LSEG I/B/E/S noticiados pela Reuters a 9 de outubro (em inglês), os analistas esperam que as empresas do STOXX 600 apresentem um crescimento agregado dos lucros de 21 % no terceiro trimestre. As receitas devem subir 10,6 %.
Basta ler mais uma linha e o quadro muda.
| Grupo | Crescimento esperado dos lucros no 3.º trimestre |
|---|---|
| STOXX 600, todas as empresas | +21 % |
| Setor da energia | +115,9 % |
| STOXX 600 sem energia | +9,7 % |
| Setor imobiliário | -71,5 % |
Espera-se que as empresas de energia mais do que dupliquem os lucros, ajudadas por preços do petróleo muito mais altos do que há um ano. Tirando-as, o crescimento cai para 9,7 %. Continua a ser razoável, mas é menos de metade do número de capa.
Se a sua carteira tem pouco ou nenhum petróleo e gás, a "época de resultados em grande" que vê nas notícias não é, na maior parte, sua. Um ETF mundial tem poucos pontos percentuais em energia. Uma carteira típica na DEGIRO com ações europeias de qualidade muitas vezes não tem nenhuma.
Dois resultados desta semana e o que ensinam
ASML: um trimestre recorde e ações a cair
O comunicado do terceiro trimestre (em inglês) da ASML, a 14 de outubro, mostrou vendas líquidas de 11,7 mil milhões de euros, lucro líquido de 5,0 mil milhões de euros e uma margem bruta de 57,5 %, um recorde. A empresa apontou para vendas de 14,2 a 15,2 mil milhões de euros no quarto trimestre e de 44 a 45 mil milhões de euros no conjunto de 2026.
Quase tudo isto eram boas notícias. As ações caíram mesmo assim, cerca de 2 % na sessão americana desse dia. Três pormenores explicam porquê:
- As receitas ficaram um pouco aquém. 11,66 mil milhões de euros, contra um consenso de cerca de 11,72 mil milhões. É pouco, mas com uma avaliação alta até as pequenas falhas contam.
- Parte do lucro acima do esperado não veio da venda de máquinas. Cerca de 0,5 mil milhões de euros vieram da subida do valor contabilístico da participação da ASML na Mistral AI. Os analistas retiram esse efeito.
- Faltou o número das encomendas. A ASML deixou de publicar as encomendas (bookings), o número que muitos investidores usavam para avaliar a procura futura.
O mercado também teve um mau dia. Dados da inflação americana acima do esperado nessa manhã fizeram subir os juros das obrigações, e as ações de chips caíram em bloco.
LVMH: em linha no total, fraca onde conta
O comunicado do terceiro trimestre (em inglês) da LVMH, a 12 de outubro, mostrou receitas de cerca de 18,5 mil milhões de euros, mais 1 % em termos orgânicos. Ficou em linha com o consenso.
O problema estava dentro do total. A moda e marroquinaria, a divisão que gera a maior parte do lucro do grupo, caiu 5 % em termos orgânicos, contra uma queda esperada de cerca de 2 % a 2,5 %. A procura mais fraca na China foi a principal razão. Perfumes e cosmética, relógios e joalharia, vinhos e bebidas espirituosas e a distribuição seletiva cresceram todos, mas são negócios mais pequenos e menos rentáveis.
A lição dos dois casos: leia a linha que gera o lucro, não a linha que faz o título. Na ASML, é a procura de máquinas futuras. Na LVMH, é a moda e marroquinaria.
Porque é que as ações caem depois de baterem as estimativas
Uma ação que bate as estimativas e cai não é um erro do mercado. Normalmente quer dizer uma de quatro coisas:
- O resultado já estava no preço. Antes dos grandes comunicados, os investidores negoceiam muitas vezes com base no que esperam. Se a cotação subiu antes dos resultados, um bom número apenas o confirma.
- As previsões desiludiram. Um trimestre forte com perspetivas cautelosas costuma perder para um trimestre fraco com perspetivas fortes.
- A qualidade do resultado era baixa. Ganhos pontuais, efeitos fiscais ou reavaliações de participações contam menos do que mais vendas ou margens melhores.
- O mercado mexeu. Num dia em que os juros disparam ou um setor inteiro cai, as boas notícias de uma empresa podem passar despercebidas.
O inverso também acontece. Uma empresa pode falhar as estimativas e subir, porque as perspetivas melhoraram ou a falha foi menor do que se temia.
Que resultados mexem mais na sua carteira?
Pegue numa carteira de 30.000 € na DEGIRO: um ETF mundial como núcleo e quatro ações europeias à volta.
A parte do ETF usa o peso das sete maiores tecnológicas americanas no MSCI World, 24,76 % no fim de setembro de 2026 (ficha do índice da MSCI), arredondado para 25 %.
| Exposição | Como a detém | Valor | Peso na carteira |
|---|---|---|---|
| Sete maiores tecnológicas americanas | Dentro do ETF mundial | 5.250 € | 17,5 % |
| Resto do ETF mundial | Dentro do ETF mundial | 15.750 € | 52,5 % |
| ASML | Direta | 3.000 € | 10 % |
| LVMH | Direta | 2.000 € | 6,7 % |
| TotalEnergies | Direta | 2.000 € | 6,7 % |
| Allianz | Direta | 2.000 € | 6,7 % |
| Total | 30.000 € | 100 % |
Este investidor escolheu quatro ações com cuidado e provavelmente vai ler todos os seus comunicados. Mas as sete tecnológicas americanas que nunca escolheu valem 17,5 % da carteira, mais do que a ASML e a LVMH juntas.
Agora assuma que cada posição se mexe 8 % no dia dos resultados, um movimento grande mas não invulgar para uma ação individual. O efeito na carteira inteira:
| Resultados de | Peso na carteira | Impacto na carteira de um movimento de 8 % |
|---|---|---|
| Sete maiores tecnológicas americanas (em conjunto) | 17,5 % | 420 € (1,4 %) |
| ASML | 10 % | 240 € (0,8 %) |
| LVMH | 6,7 % | 160 € (0,5 %) |
| TotalEnergies | 6,7 % | 160 € (0,5 %) |
Estas sete empresas raramente se mexem 8 % ao mesmo tempo, por isso trate a primeira linha como um limite máximo. Mesmo a metade, continuam a ser o maior fator isolado na temporada de resultados desta carteira. A maioria costuma apresentar contas na última semana de outubro. Essa semana deve contar mais para esta carteira do que o dia dos resultados da ASML.
A mesma lógica explica porque é que o seu ETF pode cair num dia em que as suas ações estão todas paradas. Mostrámos como encontrar estas posições escondidas no guia sobre a sobreposição de ETF e o peso das Magnificent 7.
Se tem as suas posições na DEGIRO, o Zune.Money para carteiras DEGIRO importa as suas transações e mostra cada posição com o valor em euros e o peso, os dois números de que precisa para as tabelas acima.
Como confrontar os resultados trimestrais com a sua carteira em 6 passos
Leva cerca de 30 minutos no início de cada temporada.
- Liste as posições com o respetivo peso. Inclua todas as corretoras. Depois abra os seus ETF e anote as cinco ou dez maiores posições, com o valor em euros que tem em cada uma.
- Fique só com o que passa de 3 % da carteira. Abaixo disso, um único comunicado raramente mexe no total mais do que umas décimas.
- Encontre as datas dos resultados. Use a página de relações com investidores de cada empresa. Os calendários gratuitos na internet muitas vezes divergem num dia.
- Anote um número por empresa antes dos resultados. Não a cotação. O número que move o negócio: encomendas num fabricante de equipamento, crescimento orgânico por divisão num grupo de luxo, margem financeira num banco. Junte o que as previsões diziam no trimestre anterior.
- Depois do comunicado, compare esse número e só depois as perspetivas. Ignore o "bateu" ou "falhou" do título até ter lido os dois.
- Decida só se a razão para ter a ação mudou. Uma queda no dia dos resultados não é, por si só, uma razão. Um negócio principal a encolher, ou previsões cortadas pelo segundo trimestre seguido, podem ser.
Guarde as notas. No trimestre seguinte, vê se a história que comprou se aguenta, o que vale mais do que qualquer resultado isolado.
O que não fazer durante a temporada de resultados
Não negoceie na primeira hora. O primeiro movimento da cotação inverte-se muitas vezes em poucos dias, quando os analistas leem os pormenores e ouvem a conferência.
Não confunda o índice com a sua carteira. Um crescimento de 21 % dos lucros puxado pelas petrolíferas diz pouco sobre uma carteira de fabricantes de chips e grupos de luxo.
Não deixe que um resultado mude toda a sua alocação. Se um único comunicado o pode prejudicar muito, a posição é grande demais. Corrija o tamanho, não o momento. O nosso guia sobre a bolha da IA e a exposição da sua carteira mostra como medir quanto do seu dinheiro depende de um só tema, e o artigo sobre as ações de energia da IA cobre as industriais, como a Schneider e a Legrand, que apresentam os números do terceiro trimestre nas próximas semanas.
Nada disto é um conselho para comprar ou vender qualquer ação. As regras fiscais para vendas mudam de país para país, e em Portugal a tributação das mais-valias depende da situação de cada um, por isso fale com um contabilista certificado ou um consultor fiscal antes de vender uma posição grande.
Veja a sua própria exposição aos resultados
As tabelas acima pedem uma folha de cálculo e alguma paciência. Importe o seu CSV da DEGIRO no Zune.Money e as posições, os pesos e os valores em euros atualizam-se sozinhos, por isso vê que resultados contam antes de saírem e o que fizeram ao seu total depois. O plano gratuito inclui a importação e a lista completa de posições.
Perguntas frequentes
Quando termina a temporada de resultados do terceiro trimestre?
A maioria das grandes empresas europeias e americanas publica os resultados do terceiro trimestre entre meados de outubro e meados de novembro. Alguns nomes grandes apresentam mais tarde. A Nvidia, por exemplo, tem um exercício que termina em janeiro, por isso os resultados do trimestre de agosto a outubro costumam sair na segunda metade de novembro.
O que quer dizer uma empresa bater as estimativas?
Quer dizer que o número apresentado, normalmente o lucro por ação ou as receitas, ficou acima da previsão média dos analistas que acompanham a ação. A essa média chama-se consenso. Bater as estimativas não diz se a ação está barata, e a cotação pode cair na mesma se as previsões ou um indicador-chave desiludirem.
O que são as previsões (guidance) num comunicado de resultados?
São a estimativa que a empresa dá para os seus próprios resultados futuros, por exemplo o intervalo de receitas do próximo trimestre ou o crescimento do ano inteiro. Os investidores ligam muitas vezes mais às previsões do que ao trimestre apresentado, porque a cotação reflete as expectativas de lucros futuros, não os lucros passados.
Devo vender uma ação antes de a empresa apresentar resultados?
Vender só para fugir ao movimento do dia dos resultados raramente faz sentido para um investidor de longo prazo. O movimento pode ir para qualquer lado, e paga comissões e talvez impostos para ficar de fora. Se uma única ação pesa tanto que um comunicado o pode prejudicar muito, o problema real é o tamanho da posição, não a data.


